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Published in : Projeto Evoluindo, Tópicos em Evolução


O que é Darwinismo?

Por Joel Hanes, 2005.



Em “Um Longo Argumento”, Ernst Mayr (biólogo evolutivo e fundador do conceito biológico de espécie) resume as teorias de Darwin, e traça sua história pelo mundo na comunidade científica.

No prefácio, ele começa:

”Um evolucionista moderno volta-se para o trabalho de Darwin muitas vezes. Isto não é surpreendente, uma vez que as raízes de todos os nossos pensamentos evolutivos retomam Darwin. Nossas controvérsias atuais muitas vezes têm como seu ponto de partida alguma incerteza nas escrituras de Darwin ou em questões que Darwin era incapaz de responder, devido ao insuficiente conhecimento biológico disponível em seu tempo. Mas alguns retornam aos escritos originais de Darwin para mais que razões históricas. Darwin freqüentemente compreendia coisas muito mais claramente que seus aliados e seus adversários, incluindo aqueles do dia presente.”

No capítulo quatro de "Ideological Opposition to Darwin's Five Theories", Mayr resume a ”Teoria de Darwin", ou "Darwinismo", assim: “Tanto na literatura escolar quanto na popular, freqüentemente encontram-se referências para a ‘teoria evolutiva de Darwin’, como se fosse uma entidade unitária. Na realidade, a teoria da evolução Darwin foi um pacote inteiro de teorias, e é impossível discutir o pensamento evolutivo de Darwin construtivamente se alguém não distingue seus vários componentes... O termo ‘Darwinismo’... tem significados numerosos dependendo de quem o utilize e em que período. Uma melhor compreensão do significado deste termo é apenas uma razão para chamar a atenção à natureza composta de pensamento da evolução de Darwin.

... Uma razão particular convincente por que o Darwinismo não pode ser uma única teoria monolítica é que a evolução orgânica consiste de dois processos essencialmente independentes, como vimos: a transformação no tempo, e a diversificação no espaço geográfico e ecológico. Os dois processos requerem um mínimo das duas teorias inteiramente independentes e muito diferentes... Eu considero isto necessário para dissecar a estrutura conceitual da evolução de Darwin dentro de um número de teorias principais que deram forma ao fundamento de seu pensamento evolutivo. Por conveniência, eu tenho dividido o paradigma evolutivo de Darwin em cinco teorias, mas certamente outros podem preferir uma divisão diferente. Nem todas as teorias selecionadas são as originais de Darwin; outras foram, por exemplo, seleção sexual, pangênese, efeito do uso e desuso, e divergência de caráter. No entanto, quando autores antigos se referiam à teoria de Darwin, eles invariavelmente tinham uma combinação de cinco teorias em mente:

1. Evolução como tal. Essa é a teoria de que o mundo não é constante ou criado recentemente nem eterno dando ciclos, mas que está firmemente mudando, e aqueles organismos são transformados no tempo.

2. Descendência Comum. Esta é a teoria em que todo grupo de organismos descende de um antecessor comum, e que todos os grupos de organismos, incluindo animais, plantas, e microrganismos, finalmente voltam para uma origem única de vida na terra.

3. Multiplicação da espécie. Esta teoria explica a origem da enorme diversidade orgânica. Ela pressupõe que as espécies se multiplicam, dividindo-se em espécies-filhas ou por brotamento, isto é, pelo estabelecimento de populações geograficamente isoladas que evoluem em novas espécies.

4. Gradualismo. Segundo esta teoria, a mudança evolutiva ocorre através da mudança gradual das populações e não pelas repentinas (saltos) produção de novos indivíduos que representam um novo tipo.

5. Seleção Natural. Segundo esta teoria, as mudanças evolutivas acontecem pela abundante produção de variação genética em cada geração. Relativamente poucos indivíduos que sobrevivem, devido à combinação particularmente bem-adaptada de caráteres hereditários, originam a próxima geração.“

Vamos olhar algumas das implicações da análise de Mayr:

A princípio, o Gradualismo parece entrar em conflito com a teoria do Equilíbrio Pontuado, de Gould e Eldredge; mas em um exame mais próximo, vemos que não. Aqui (graças a Robert Low) são duas citações relevantes de A Origem das Espécies: "... é provável que os períodos, durante os quais as espécies sofreram modificações, embora muitas e por muito tempo (medido por anos), têm sido curtos em comparação com os períodos durante que cada um permaneceu em uma condição inalterada" (final da 6ª edição, 1872). “As variedades estão freqüentemente em primeiro local... rendendo a descoberta de elos intermediários menos prováveis. Variedades locais não se espalharão em outras regiões distantes até que estejam consideravelmente modificadas e melhoradas; e quando se espalham, se descobertos em uma formação geológica, eles aparecerão como se tivessem sido criados repentinamente, e simplesmente serão classificados como nova espécie". Darwin não afirmou que a mudança evolutiva é contínua e lenta – apenas que esta não ocorre por "saltos" em uma única geração (que Mayr chama pela mudança saltacional). Isto é, apesar das distorções de alguns antievolucionistas, Darwin explicitamente não pensava que a evolução continua pela produção de “monstros esperançosos" -- O próprio Darwin nunca propôs que um pai dinossauro-completo daria origem a uma progênie de aves-completas. Certamente, a mudança se processou em uma série intermediária, talvez quase insensível, entre gerações sucessivas. Note que a mudança sobre mil gerações de quaisquer espécies aparece como "repentina" ou "abrupta" no registro fóssil, porque mil gerações são infinitesimalmente uma pequena fração da história da Terra.

A Seleção Natural não esclarece alguns dos tipos de variação que nós vemos nas espécies - particularmente caracteres não-adaptativos - mas você notará que Darwin não afirmou que a seleção natural explicou todos as características, mas aquelas meramente adaptativas.

Depois de Darwin, alguns biólogos distorceram a teoria de seleção natural na doutrina de “adaptacionismo estrito", em que cada característica de cada organismo foi produzida pela seleção natural (e assim alguma explicação de por quê a característica é adaptativa foi necessária). Mas Darwin não disse que toda seleção é a seleção natural (adaptativa) - unicamente que a seleção natural é a fonte de alguma mudança, e pode explicar porque mudança adaptativa ocorre. Os biólogos modernos têm proposto outros mecanismos de mudança - seleção neutra, deriva genética, efeito do fundador, etc - e o próprio Darwin pensou que a seleção sexual poderia ser importante. Nenhum destes contradiz a idéia da seleção natural; como mecanismos adicionais para mudança genética ao longo do tempo, eles a aumentam.

Aqui, graças a Ken Smith, está uma citação do capítulo final da sexta edição de Sobre a Origem das Espécies: “Mas como minhas conclusões têm sido ultimamente muito deturpadas, e tem sido declarado que eu atribuo a modificação das espécies exclusivamente à seleção natural, eu me permito comentar que na primeira edição deste trabalho, e subseqüentemente, eu coloquei em uma posição mais conspícua - a saber, no fim da introdução - as seguintes palavras: ‘Eu estou convencido que a seleção natural foi o principal, mas não exclusivo meio de modificação’”.

Isto não foi de nenhum proveito. Grande é o poder da distorção; mas a história da ciência mostra que felizmente este poder não resiste por muito tempo.

Mayr retoma a história das teorias darwinistas, e dirige-se às reivindicações de que o Darwinismo tem sido refutado ou substituído, no capítulo dez de "Novas fronteiras na Biologia Evolutiva”. Assim como na década posterior à redescoberta das Leis de Mendel, desde os anos 1970, a reclamação cada vez mais freqüente é o de que "Darwinismo está morto”.

Os oponentes (do evolucionismo moderno) confundem consistentemente três escolas do Darwinismo:

1 Neo-Darwinismo, um termo inventado por Romanes em 1896 para designar: "Darwinismo sem uma herança de caráteres adquiridos";

2 Genética de populações primitiva, uma forte escola do reducionismo que definia a evolução como a modificação de freqüências gênicas por seleção natural; e

3 O ramo holístico da síntese evolutiva moderna, que continuaram as tradições de Darwin e dos naturalistas enquanto aceitavam as descobertas da genética.

O Darwinismo não é uma teoria simples que seja verdadeira ou falsa, mas é antes, um programa de pesquisa altamente complexo que continuamente está sendo modificado e melhorado. Isto era verdadeiro antes da síntese evolutiva, e continua a ser verdadeiro após a síntese. A Tabela 1 lista muitos dos estágios significantes na modificação do Darwinismo que podem ser reconhecidos. Contudo, reconhecer tais períodos aparentemente descontínuos é, em muitos aspectos, um empreendimento irreal... Cada um destes períodos era heterogêneo em alguma extensão, devido à diversidade de pensamentos de diferentes evolucionistas. A maioria dos críticos que tentaram refutar a síntese evolutiva não reconheceu esta diversidade de pontos de vista, e assim, continuam refutando somente a franja reducionista do campo do Darwinismo.
 

Tabela 1 – Estágios significativos na modificação do Darwinismo

Data

Estágio

Modificação

1883-1886

Neo-darwinismo de Weismann

Fim da herança suave; reconhecimento da diploidia e da recombinação gênica;

1900

Mendelismo

Constância genética aceita e herança por mistura rejeitada;

1918-1933

Fisherismo

Evolução considerada uma questão de freqüências gênicas e a força de pressões seletivas mesmo pequenas;

1936-1947

Síntese Evolutiva

Ênfase nas populações; interesse na evolução da diversidade, especiação geográfica, taxas evolutivas variáveis;

1947-1972

Pós-Síntese

Indivíduo visto como alvo da seleção; abordagem mais holística; aumento no reconhecimento da chance e restrições;

1954-1972

Equilíbrio Pontuado

Importância da evolução especiativa;

1969-1980

Redescoberta da importância da Seleção Sexual

Importância do sucesso reprodutivo para a seleção;



Referências:
 

Darwin, C. (1859) On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favored Races in the Struggle for Life. First Edition.

Mayr, E. (1991) One Long Argument: Charles Darwin and the Genesis of Modern Evolutionary Thought. Harvard University Press, Cambridge Massachusetts. 575pp.

 

Traduzido por Fernando S. Aldado. 

Texto original
Traduzido e publicado sob licença de Talk Origins

Como citar esse documento

Muitas pessoas perguntaram como citar esse trabalho em artigos formais e acadêmicos. Esse trabalho é uma publicação online, publicada originalmente pelo arquivo do Talk.Origins, e em sua versão em português no Projeto Evoluindo. Há procedimentos acadêmicos padrão para citação de publicações online. As informações para referenciar o texto original encontram-se aqui.

Hanes, J. (2005) O que é Darwinismo? Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Fernando S. Aldado. [http://www.evoluindo.biociencia.org/darwinismo.htm]




   
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