Há Progresso e Direção na
Evolução?
Por John Wilkens, 1997
Sumário: Evolução não possui
meta, mas há tendências direcionais de um gênero menor. Explicações teológicas
são mais complexas do que alguém pode pensar.
Uma das concepções erradas mais comuns, com uma história muito anterior a
Darwin, é a de que evolução é progressiva, que seres se tornam mais complexos e
perfeitos de alguma maneira.
Na realidade, esta idéia é
atribuída mais às atitudes sociais e religiosas da cultura européia do século
XVIII e século XIX do que a qualquer evidência. Foi determinado que seres
estivessem se tornando melhores e melhores, em todos os sentidos, todos os dias.
Isto persistiu até muito tempo
após o darwinismo, até a metade deste século (por exemplo, Teilhard de Chardin).
Até Darwin era ambíguo sobre isto, falando em ocasião sobre ‘perfeição’ como um
resultado de seleção.
No tempo da ‘síntese moderna’,
na década de 1940, a noção de progresso foi calmamente abandonada, com poucas
exceções (como Dobzhnsky e Huxley, de dentro do movimento da síntese, e
Schindewolf e Goldschimidt, por fora dele).
É claro que, escritores
heterodoxos (geralmente não biólogos) como Teilhard e Koestler, ficaram
progressionistas muito depois disso. Mas desde a década de 1970, a idéia de
progresso tem sido abandonada por biólogos na ativa.
Recentemente o problema foi
trazido à tona, retirado do misticismo de discussões antescedentes. O biólogo
J.T. Bonner afirmou que havia um aumento em complexidade de organismos a longo
prazo, e outros defendiam uma forma de progresso local sob os termos ‘corrida
armamentista’ e ‘incremento’.
Gould se sentiu tão decidido que ele foi induzido a negar isso, de que “pelo
menos desde a explosão cambriana tem de haver registro de qualquer tipo de
progresso”.
Muitas das discussões modernas
focam a questão do que é considerado como ‘progresso’. Gould pensa que a
tendência aparente a complexidade é apenas uma questão de evolução aleatória,
que se iniciou em uma ‘parede’ mínima de complexidade:

Progresso aparente devido a uma ‘parede’ restringindo
onde a mudança aleatória pode modificar.
Adaptado de Gould (1996).
Outros afirmam que há apenas
progresso porque qualquer aumento sobre zero é um aumento líquido, e que medidas
diferentes darão resultados diferentes. A noção tradicional de progresso como um
aumento em perfeição ou otimização foi abandonado, por ter se apoiado em uma
concepção que volta aos neo-platonistas recentes – a idéia de que tudo da
realidade é organizado em uma hierarquia de perfeição crescente. Isto é chamado
de ‘scala naturae’, e é freqüentemente referido à Escada de Perfeição. A ciência
evolucionária moderna não pensa que o caminho da evolução é uma escada, embora
Lamarck pensasse. A idéia atual é mais bem resumida pela frase de Gould –
“evolução é um arbusto, não uma árvore.”
A idéia de progresso
propriamente dita foi uma noção medieval recente, tomada da secularização da
teologia, especialmente da doutrina chamada “escatologia’” (literalmente, o
‘estudo dos últimos seres’). A ‘descoberta’ da história definiu que organismos
biológicos são entidades históricas. A idéia de que a história foi progressiva
levou à noção de que assim era a história da vida, especialmente visto que leva
ao Homem. No século XIX, o progressivismo era extremo, e curiosamente sempre
pareceu que o último estágio foi aquele do escritor, se era Marx para a classe
trabalhadora (européia), Spencer para a britânica (na maior parte inglesa), ou
Wagner para os alemães (prussianos, em maioria). A primeira guerra mundial veio
como um choque para muitos, e o progresso gradualmente perdeu sua atração.
Sistemas biológicos são
históricos de duas maneiras: eles são os resultados de processos irreversíveis
(por exemplo, eles crescem e morrem), e eles são contingentes. O segundo ponto é
importante se você está pensando sobre o que é ciência em biologia. Você não
pode freqüentemente repetir um evento na biologia como especiação (alguns
híbridos podem ser reformados repetidamente no laboratório) e obter os mesmos
resultados. Além disso, a concepção chamada teleologia foi abandonada por
biólogos: explicações do que alguma coisa é, a fim de alcançar um resultado
final. É suficiente que seja resultado da seleção.
É? Teleologia é, também, fazer
um menor retorno. Na ciência, teleologia é uma forma de modelar um comportamento
do sistema recorrendo ao seu estado final, ou meta. É uma resposta a uma questão
sobre função e propósito. Por que os vertebrados possuem corações? Para bombear
sangue pelo corpo para distribuir oxigênio e nutrientes, etc. Esta é a
explicação funcional. A função dos corações é bombear sangue. Na evolução, a
questão ‘por que organismos exibem adaptação?’ não é respondida teleologicamente
com ‘a fim de sobreviverem’, mas historicamente – ‘porque aqueles que foram
menos adaptativos não sobreviveram’.
No entanto, algumas formas de
teleologia ainda são usadas, no entendimento de que elas se reduzem a
explicações históricas.
Isso pode ajudar a pensar em uma
analogia social. Podemos explicar teleologicamente o comportamento de um mercado
de ações. Para mercados de ações não há metas, apenas resultados. Quando Dawkins
fala sobre genes maximizando suas representações no pool genético, isto é uma
metáfora, não uma explicação. Genes apenas replicam. Ocorre que aqueles que
replicam outros em excesso e acabam sobrevivendo em excesso. Não há ‘meta’ para
o comportamento genético.
Há duas formas de explicação
teleológica. Explicação teleológica externa deriva de Platão – uma meta é
imposta por um agente, uma vontade, que possui intenções e propósito. Explicação
teleológica interna deriva de Aristóteles, e é uma noção funcional. Aristóteles
dividiu causas em quatro gêneros – explicação teleológica material (a matéria de
que um ser é feito), formal (sua forma ou estrutura), eficiente (as capacidades
das causas para alcançar os seres que elas alcançam) e final (o propósito ou fim
para qual um ser existe). Teleologia interna é realmente uma forma de explicação
causal nas condições de valor de um ser sendo explicado. Esta classe de
teleologia não impacta em explicações em termos de causas eficientes.
Você pode, de acordo com
Aristóteles, usar ambos.
Explicações evolutivas são mais
parecidas com as causas formais e eficientes de Aristóteles. Qualquer explicação
funcional pede mais uma questão – qual é a razão daquela função ser importante
para aquele organismo? – e isso pede até mesmo uma questão a mais – por que
aquele organismo deveria existir? As respostas para estas questões dependem na
história da linhagem que leva ao organismo.
A teleologia externa está morta
em biologia, mas há uma distinção adicional a ser feita. Mayr distinguiu quatro
tipos de explicações que são algumas vezes chamadas teleologia: telenômica
(procura de metas, causas finais de Aristóteles, explicações
‘para-o-motivo-de-que’); teleomática (comportamento referente a juízo que não é
a procura de meta); sistemas adaptados (que não são de maneira nenhuma procura
de meta, mas existem apenas porque eles sobrevivem); e teleologia cósmica
(sistemas direcionados ao fim). Apenas sistemas que são ativamente direcionados
por uma meta são verdadeiramente teleológicos. A maioria são apenas teleomáticos,
e alguns (programas genéticos, por exemplo) são teleonômicos (teleologia
interna), porque eles procuram um fim.

Como as quatro formas de teleologia aparente se relacionam.
Muitas críticas do darwinismo se
apóiam no engano da natureza da teleologia. Sistemas da biologia que são “busca
do fim” são concebidos como “direcionados ao fim”, algo que o darwinismo não faz
uso em seus modelos.
Fora da biologia – na realidade,
fora da ciência – você pode usar teleologia externa como você quiser, mas isso
não funciona como uma explicação de qualquer fenômeno além daqueles que são na
verdade os resultados de agentes como corretores de bolsa de valores. E mesmo
lá, a teleologia é sempre útil para os corretores da bolsa que desejaram o
objetivo da quebra de 1987, ou a depressão de 1930? A teleologia externa é
inútil na ciência, e qualquer ciência que tenta ser teleológica se tornará
misticismo imediatamente.
Como citar este
documento
Wilkins, J. (2006) Evolução e Filosofia - uma introdução. Há Progresso e Direção na Evolução? Projeto Evoluindo -
Biociência.org. Trad.: Fernando Lorenzon [http://www.evoluindo.biociencia.org].
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