PDF Imprimir E-mail

Views : 4323    

Favoured : Nenhum

Published in : Projeto Evoluindo, Filosofia e Evolução


Há Progresso e Direção na Evolução?

Por John Wilkens, 1997


Sumário: Evolução não possui meta, mas há tendências direcionais de um gênero menor. Explicações teológicas são mais complexas do que alguém pode pensar.

Uma das concepções erradas mais comuns, com uma história muito anterior a Darwin, é a de que evolução é progressiva, que seres se tornam mais complexos e perfeitos de alguma maneira.

Na realidade, esta idéia é atribuída mais às atitudes sociais e religiosas da cultura européia do século XVIII e século XIX do que a qualquer evidência. Foi determinado que seres estivessem se tornando melhores e melhores, em todos os sentidos, todos os dias.

Isto persistiu até muito tempo após o darwinismo, até a metade deste século (por exemplo, Teilhard de Chardin). Até Darwin era ambíguo sobre isto, falando em ocasião sobre ‘perfeição’ como um resultado de seleção.

No tempo da ‘síntese moderna’, na década de 1940, a noção de progresso foi calmamente abandonada, com poucas exceções (como Dobzhnsky e Huxley, de dentro do movimento da síntese, e Schindewolf e Goldschimidt, por fora dele).

É claro que, escritores heterodoxos (geralmente não biólogos) como Teilhard e Koestler, ficaram progressionistas muito depois disso. Mas desde a década de 1970, a idéia de progresso tem sido abandonada por biólogos na ativa.

Recentemente o problema foi trazido à tona, retirado do misticismo de discussões antescedentes. O biólogo J.T. Bonner afirmou que havia um aumento em complexidade de organismos a longo prazo, e outros defendiam uma forma de progresso local sob os termos ‘corrida armamentista’ e ‘incremento’.
Gould se sentiu tão decidido que ele foi induzido a negar isso, de que “pelo menos desde a explosão cambriana tem de haver registro de qualquer tipo de progresso”.

Muitas das discussões modernas focam a questão do que é considerado como ‘progresso’. Gould pensa que a tendência aparente a complexidade é apenas uma questão de evolução aleatória, que se iniciou em uma ‘parede’ mínima de complexidade:

 


Progresso aparente devido a uma ‘parede’ restringindo
onde a mudança aleatória pode modificar.
Adaptado de Gould (1996).
 

Outros afirmam que há apenas progresso porque qualquer aumento sobre zero é um aumento líquido, e que medidas diferentes darão resultados diferentes. A noção tradicional de progresso como um aumento em perfeição ou otimização foi abandonado, por ter se apoiado em uma concepção que volta aos neo-platonistas recentes – a idéia de que tudo da realidade é organizado em uma hierarquia de perfeição crescente. Isto é chamado de ‘scala naturae’, e é freqüentemente referido à Escada de Perfeição. A ciência evolucionária moderna não pensa que o caminho da evolução é uma escada, embora Lamarck pensasse. A idéia atual é mais bem resumida pela frase de Gould – “evolução é um arbusto, não uma árvore.”

A idéia de progresso propriamente dita foi uma noção medieval recente, tomada da secularização da teologia, especialmente da doutrina chamada “escatologia’” (literalmente, o ‘estudo dos últimos seres’). A ‘descoberta’ da história definiu que organismos biológicos são entidades históricas. A idéia de que a história foi progressiva levou à noção de que assim era a história da vida, especialmente visto que leva ao Homem. No século XIX, o progressivismo era extremo, e curiosamente sempre pareceu que o último estágio foi aquele do escritor, se era Marx para a classe trabalhadora (européia), Spencer para a britânica (na maior parte inglesa), ou Wagner para os alemães (prussianos, em maioria). A primeira guerra mundial veio como um choque para muitos, e o progresso gradualmente perdeu sua atração.

Sistemas biológicos são históricos de duas maneiras: eles são os resultados de processos irreversíveis (por exemplo, eles crescem e morrem), e eles são contingentes. O segundo ponto é importante se você está pensando sobre o que é ciência em biologia. Você não pode freqüentemente repetir um evento na biologia como especiação (alguns híbridos podem ser reformados repetidamente no laboratório) e obter os mesmos resultados. Além disso, a concepção chamada teleologia foi abandonada por biólogos: explicações do que alguma coisa é, a fim de alcançar um resultado final. É suficiente que seja resultado da seleção.

É? Teleologia é, também, fazer um menor retorno. Na ciência, teleologia é uma forma de modelar um comportamento do sistema recorrendo ao seu estado final, ou meta. É uma resposta a uma questão sobre função e propósito. Por que os vertebrados possuem corações? Para bombear sangue pelo corpo para distribuir oxigênio e nutrientes, etc. Esta é a explicação funcional. A função dos corações é bombear sangue. Na evolução, a questão ‘por que organismos exibem adaptação?’ não é respondida teleologicamente com ‘a fim de sobreviverem’, mas historicamente – ‘porque aqueles que foram menos adaptativos não sobreviveram’.

No entanto, algumas formas de teleologia ainda são usadas, no entendimento de que elas se reduzem a explicações históricas.

Isso pode ajudar a pensar em uma analogia social. Podemos explicar teleologicamente o comportamento de um mercado de ações. Para mercados de ações não há metas, apenas resultados. Quando Dawkins fala sobre genes maximizando suas representações no pool genético, isto é uma metáfora, não uma explicação. Genes apenas replicam. Ocorre que aqueles que replicam outros em excesso e acabam sobrevivendo em excesso. Não há ‘meta’ para o comportamento genético.

Há duas formas de explicação teleológica. Explicação teleológica externa deriva de Platão – uma meta é imposta por um agente, uma vontade, que possui intenções e propósito. Explicação teleológica interna deriva de Aristóteles, e é uma noção funcional. Aristóteles dividiu causas em quatro gêneros – explicação teleológica material (a matéria de que um ser é feito), formal (sua forma ou estrutura), eficiente (as capacidades das causas para alcançar os seres que elas alcançam) e final (o propósito ou fim para qual um ser existe). Teleologia interna é realmente uma forma de explicação causal nas condições de valor de um ser sendo explicado. Esta classe de teleologia não impacta em explicações em termos de causas eficientes.

Você pode, de acordo com Aristóteles, usar ambos.

Explicações evolutivas são mais parecidas com as causas formais e eficientes de Aristóteles. Qualquer explicação funcional pede mais uma questão – qual é a razão daquela função ser importante para aquele organismo? – e isso pede até mesmo uma questão a mais – por que aquele organismo deveria existir? As respostas para estas questões dependem na história da linhagem que leva ao organismo.

A teleologia externa está morta em biologia, mas há uma distinção adicional a ser feita. Mayr distinguiu quatro tipos de explicações que são algumas vezes chamadas teleologia: telenômica (procura de metas, causas finais de Aristóteles, explicações ‘para-o-motivo-de-que’); teleomática (comportamento referente a juízo que não é a procura de meta); sistemas adaptados (que não são de maneira nenhuma procura de meta, mas existem apenas porque eles sobrevivem); e teleologia cósmica (sistemas direcionados ao fim). Apenas sistemas que são ativamente direcionados por uma meta são verdadeiramente teleológicos. A maioria são apenas teleomáticos, e alguns (programas genéticos, por exemplo) são teleonômicos (teleologia interna), porque eles procuram um fim.
 


Como as quatro formas de teleologia aparente se relacionam.
 

Muitas críticas do darwinismo se apóiam no engano da natureza da teleologia. Sistemas da biologia que são “busca do fim” são concebidos como “direcionados ao fim”, algo que o darwinismo não faz uso em seus modelos.

Fora da biologia – na realidade, fora da ciência – você pode usar teleologia externa como você quiser, mas isso não funciona como uma explicação de qualquer fenômeno além daqueles que são na verdade os resultados de agentes como corretores de bolsa de valores. E mesmo lá, a teleologia é sempre útil para os corretores da bolsa que desejaram o objetivo da quebra de 1987, ou a depressão de 1930? A teleologia externa é inútil na ciência, e qualquer ciência que tenta ser teleológica se tornará misticismo imediatamente.
 



Como citar este documento

Wilkins, J. (2006) Evolução e Filosofia - uma introdução. Há Progresso e Direção na Evolução? Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Fernando Lorenzon [http://www.evoluindo.biociencia.org].


   
Citar este artigo em seu website
Favoritos
Imprimir
Enviar por email
Artigos relacionados
Salvar no del.icio.us

Users' Comments  RSS feed dos comentários
 

Average user rating

   (0 voto)

 


Adicionar comentário
Apenas utilizadores registados podem comentar um artigo.

Nenhum comentário



mXcomment 1.0.3 © 2007-2013 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved