PDF Imprimir E-mail

Views : 2825    

Favoured : Nenhum

Published in : Projeto Evoluindo, Filosofia e Evolução


Naturalismo: é necessário?

 

Por John Wilkens, 1997


Sumário: A ciência deve admitir que tudo possa ser investigado empiricamente, mas isto não força o abandono do sobrenatural, para aqueles que o querem.

Na filosofia, ‘naturalismo’ é a idéia de que uma explicação é justificada como se apoiada na evidência de um tipo empírico. Tem sido muito aplicada na filosofia da mente e filosofia moral, e recentemente, como uma ferramenta para a ‘hegemonia conceitual’ da ciência em oposição às idéias de alguns sociologistas e historiadores da ciência, que colocariam as visões de mundo (comportamentos aceitos pela sociedade) em perspectiva. Na discussão do criacionismo x evolução, tende a significar algo mais – a idéia de que explicações não devem levar em consideração o sobrenatural ou espiritual. Estes dois sentidos sobrepõem a um grau (porque evidência do sobrenatural não é empírica, mas revelatória).

Repare, entretanto, que o segundo sentido é uma idéia sobre o que existe, enquanto o padrão é uma idéia sobre o que pode ser conhecido na ciência. Se há um reino espiritual que não é aberto à observação, então a ciência não pode usá-lo para explicação. Para a ciência, explica-se sobre coisas que são observadas.

Se a ciência não pode ser usada para explicar coisas que não se pode ver e testar, isto não exclui outras disciplinas usando explicações não-naturais (como a teologia). Apenas significa que a ciência não pode usá-la, assim como ela destrói o verdadeiro conceito da ciência. Há duas maneiras nas quais a ciência não pode ser não-naturalística. Ela não pode fazer a suposição de que os fenômenos são mesmos não-naturais – ela tem de assumir que tudo observado é acessível por uma investigação naturalística. Chame a isto de naturalismo metodológico.

A ciência deve também evitar explicações não-naturais. Isto é naturalismo explanatório. Qualquer explicação que usa ‘explanadores’ (algo a explicação) não-naturais, falha em ser testado. Eu poderia propor que um processo qualquer é o resultado dos poderes de um Unicórnio Rosa Invisível. Você não pode nem falsificar nem verificar isto (nos sentidos habituais). A marca de qualidade da ciência, talvez a única marca, é que explicações são testáveis. A razão para isto está no que a filosofia chama de epistemologia (da palavra grega para crença, epistemé, mas usado no sentido de conhecimento – conseqüentemente, ‘estudo do conhecer’).

Epistemologias de Platão a Kant foram infalibilísticas – uma crença não era conhecimento se houvesse qualquer chance de estar enganada. A ciência, por outro lado, está freqüentemente errada, e é constantemente revisada.

Contudo, o que a ciência entrega é de longe a mais bem-sucedida forma de conhecimento reunido jamais desenvolvido por humanos. A epistemologia requerida pela ciência é por esta razão uma visão falibilística do conhecer.

A base para isto encontra-se no ato de testar. A explicação científica deve ser aberta para qualquer investigador competente a testar e avaliar. Experiências revelatórias não são universalmente abertas a todos, e intuições sobre o universo são muito diferentes para diferentes pessoas e culturas, então explicações não-naturalísticas são excluídas do domínio da ciência.

Uma maneira útil de abordar isto é perguntar com que se pareceria uma explicação não-naturalística. Explicações são equações, de alguma forma. Você explica X por dizer o que é um Y (e um Z, etc). Se uma explicação não-natural deve funcionar, ela tem de colocar algo que não é nem vazio nem circular no outro lado da equação. O que conta como um explanador não-natural? ‘Alguma coisa é não-natural se ela não for natural’ é completamente vazio até nós soubermos como distinguir entre as duas.

O caminho habitual para definir o não-natural é que isso não é explicável na forma de leis naturais; ou seja, quebra a corrente causal. Se nós abandonarmos a suposição metodológica do naturalismo – que tudo é aberto à investigação empírica – podemos dizer que qualquer coisa não explicável atualmente por leis científicas é não-natural, mas não é isso o que significa. Podemos distinguir entre nossa ignorância atual e alguma coisa que é a princípio não cientificamente explicável, certamente.

Queremos alguma coisa que é completamente fora do curso e eventos físicos [alguns proponentes do termo ‘sobrenatural’ o usam para se referirem a ‘incausado’ – o que isso significa na verdade é realmente incerto].

Mas se nós o tivermos, poderíamos incorporá-lo dentro de uma explicação científica? Poderíamos obviamente não usar observações empíricas – elas dependem do curso ordinário dos processos físicos. Então, o que mais está lá? A resposta é: nada. Explicações não-naturais não são científicas.

A forma final do naturalismo é o naturalismo ontológico. Esta é a opinião de que tudo que existe (grego clássico: on-, forma raiz de ‘ser’, da qual ‘ontologia’ é derivada, conseqüentemente, ‘o estudo do que existe’) é natural. Muitos cientistas são também fisicalistas. Eles afirmam que se nós não precisamos postular a realidade de processos não-físicos para a ciência, então podemos concluir que não há tais coisas. Este argumento é muito rápido. A alegação que ‘se A então B’ explica que B deve ser verdadeiro, mas deve haver também um C que explica B. Além disso, muitas coisas no mundo físico são causadas por muitas coisas juntas que apenas umas poucas. Então, podemos dizer que um evento físico é causado ambos, por Deus e por causas físicas, sem ser logicamente inconsistente.

Sua resolução depende do que você está usando como suposições básicas. Na ciência, a Navalha de Ockham (‘não multiplique entidades na explicação, desnecessariamente’) – também conhecida como parcimônia – é usada para alcançar a explicação mais firmada. Estender esta ciência externa é uma proposta arriscada, a menos que você queira fazer com que a suposição metodológica também funcione na metafísica tão bem quanto na física. Muitos estão (incluindo eu), mas não é uma conclusão necessária vinda de qualquer forma de ciência.

Na doutrina filosófica conhecida como naturalismo moral, sistemas morais são explicados nas condições das propriedades sociais ou biológicas de humanos. Isto é freqüentemente uma abordagem darwiniana. O que eu quero apontar é que não apenas explicar, mas propor um sistema moral nesta maneira envolve o que G.E. Moore famosamente chamou de “Falácia Naturalística”. Você pode dar uma explicação naturalística de morais sem justificar ou invalidar esses princípios morais. Explicação e justificação são duas atividades diferentes. Então, com ontologia também. Você pode aceitar a suposição metodológica do naturalismo na ciência, sem invalidar ontologias não-naturalísticas. Elas apenas não são científicas. Na minha concepção, ontologias fora da ciência é um assunto de escolha pessoal. E como Cícero uma vez disse, gosto não se discute. Na ciência, há (legítima) discussão. Então, ciência é mais que uma questão de gosto.

 



Como citar este documento

Wilkins, J. (2006) Evolução e Filosofia - uma introdução. Naturalismo: é necessário? Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Fernando Lorenzon [http://www.evoluindo.biociencia.org].


   
Citar este artigo em seu website
Favoritos
Imprimir
Enviar por email
Artigos relacionados
Salvar no del.icio.us

Users' Comments  RSS feed dos comentários
 

Average user rating

   (0 voto)

 


Adicionar comentário
Apenas utilizadores registados podem comentar um artigo.

Nenhum comentário



mXcomment 1.0.3 © 2007-2010 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved