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Published in : Projeto Evoluindo, Tópicos em Evolução


Humanos como um estudo de caso para evidências de Evolução

Por Martin Nickels – Illinois State University 

Originalmente publicado em Creation/Evolution, número XIX (1986-87).

 

Como antropólogos físicos, nós somos amaldiçoados e afortunados quando precisamos ensinar evolução. A razão para o dilema é que, por um lado, nos focamos em um organismo que é claramente o mais difícil e problemático para as pessoas aceitarem como tendo evoluído e, por outro lado, tratamos de uma espécie que provavelmente é sem paralelos em termos da quantidade absoluta de informações científicas e evidências suportando a idéia de que a evolução ocorreu neste planeta.

 

Pessoalmente, eu considero nosso foco na evolução humana como uma oportunidade de ouro e sem paralelos para ensinar sobre evolução e direcionar importantes aspectos da controvérsia criação/evolução. Há várias razões para isso.

 

12 linhas de evidência para evolução de humanos (e outros primatas)


7 linhas de evidências da biologia:

1 – Classificação Hierárquica (Taxonômica)
 


primatas formam grupos hierárquicos naturalmente aninhados;

 

2 – Anatomia Comparativa 


homologias;


atributos adaptativos gerais de todos os primatas (inclusive humanos);


anatomia distintivamente pareada possuída pelos hominóides;

 

3 – Embriologia Comparativa (Ernst Haeckel)

4 – Bioquímica Comparativa (anos 50)
 


serviu como um teste substancial à teoria evolutiva (e ilustrou a concordância entre linhas independentes de evidência);


sequência de aminoácidos de proteínas (produtos genéticos);


padrões de bandamentos cromossômicos (loci gênicos);


estrutura do DNA em si (genes);

 

5 – Comprometimentos Adaptativos ou “imperfeições” 


“aparelhos” (Charles Darwin);


“evolução como conserto” (François Jacob);


exemplos humanos:
- estrutura pélvica adaptada para completamente ereto bipedalismo e dar a luz a bebês de cérebros grandes;
- laringe diminuída, uma adaptação para a fala mas também uma tendência maior a engasgue comparada a outros mamíferos;

 

6 – Estruturas vestigiais 


“sinais sem sentido da história” (Stephen Jay Gould);


exemplos humanos: orelhas com músculos, tubérculo de Darwin, apêndice, dedo mínimo do pé;

 

7 – Biogeografia 


refere-se à distribuição geográfica de espécies similares como um resultado de ancestralidade compartilhada; por exemplo, os lêmures em Madagascar, macacos do Novo e do Velho Mundo, macacos menores;


predição de Darwin em 1871 sobre o encontro de fósseis de humanos primitivos na África;

 

 

5 linhas de evidência da paleontologia e arqueologia:


8 – Paleo-biogeografia


fósseis de hominídeos primitivos são da África como previsto por Darwin e a teoria evolutiva;

 

9 – Seqüência Fóssil 


formas mais primitivas (menos modernas) encontradas antes e posteriormente as mais modernas;

 

10 – Fósseis intermediários 


fósseis intermediários teoricamente deveriam mostrar, e mostram, uma combinação de características primitivas e derivadas: espécimens mosaico
- Lucy (Hadar, Etiópia, 3 ma.);
- Vários espécimes arcaico/modernos (como Jebel Irhoud, Predmost);

 

11 – Coerência Ecológica da Mistura de Fósseis 


fósseis reunidos representam coleções ecologicamente sensíveis de espécies fósseis (contra o modelo do caos diluviano);


virtualmente qualquer sítio de hominídeos, mas especialmente aqueles de hominídeos com remanescentes de fósseis da flora e/ou fauna;

 

12 – Seqüência Cronológica de Ferramentas de Pedra 


a mesma ordem de seqüência do desenvolvimento vista em mais primitivos para mais avançados fósseis é visto na seqüência arqueológica de ferramentas de pedra das mais crus às mais sofisticadas e refinadas;

 

Primeiro, nós temos que tratar do organismo que a maioria das pessoas e estudantes está inerentemente mais interessada do que em qualquer outro: eles mesmos. Isto significa que nós podemos tirar vantagem deste interesse e usá-lo para falar de uma das mais importantes idéias em toda a ciência, a chamada evolução.

 

Segundo, devido a quantidade de evidências científicas que existem para a evolução humana, nós temos a invejável posição de ser hábeis a extrair o conhecimento de muitas áreas de pesquisa científica e construir um dos mais fortes estudos de caso para a evolução em toda a biologia.

 

Terceiro, devido ao nosso foco primário sobre os humanos, podemos enfatizar e reforçar a idéia de que humanos são verdadeiramente animais (o que significa que somos uma parte do mundo natural, ao invés de ser uma criatura separada dele). Esta idéia se torna certamente ainda mais importante quando demonstramos que os humanos são um produto natural do processo biológico.

 

Quarto, montando convincentemente o estudo de caso  para a evolução humana, certamente a elaboração de estudo semelhante para qualquer outra espécie será mais fácil. Além disso, já tendo tratado com a espécie mais problemática de todas, não deve haver muitas objeções em pensar que outros  - todos os outros – organismos evoluíram.

 

Quinto, temos a oportunidade de ilustrar vários aspectos importantes da natureza da ciência e do conhecimento científico. Isto inclui usar tais critérios como linhas independentes de evidência, concordância ou consistência de evidência e do poder preditivo encontrado nos padrões inerentes à natureza para avançar na compreensão científica do mundo em que vivemos e do qual surgimos.

 

O foco desta discussão é ilustrar a força de muitas linhas de evidências científicas suportando a idéia da evolução humana e a importância da concordância ou acordo que existe entre elas. Alguns dos critérios mais importantes pelos quais a resistência de uma teoria científica é avaliada inclui o número de linhas independentes de evidência que são concordantes umas com as outras e a habilidade de usar o conhecimento de uma linha para predizer o padrão que encontraremos em outra. Assim, utilizar humanos como estudo de caso em evolução também permitirá ilustrar alguns aspectos amplos da natureza da ciência e como podemos julgar a resistência global de qualquer teoria ou explicação científica.

 

Eu quero enfatizar a importância do uso do termo “evidência” ao invés do termo mais coloquial “prova” em discursos científicos normais. Os cientistas tratam de evidências, não de provas, no sentido que nós tratamos de informações e dados que precisam fazer sentido ou ser interpretados ao invés de ser, perdoem a expressão, auto-evidentes. A matemática e a lógica podem tratar de provas inegáveis devido à natureza das idéias e conceitos abstratos com os quais elas lidam, mas os cientistas precisam descobrir os padrões inerentes no mundo natural e então explicá-los à luz da nossa compreensão dos processos naturais, que nós devemos utilizar para explicar tais padrões.

 

Os cientistas, por sua vez, têm desenvolvido critérios para estimar e avaliar os méritos relativos de explicações alternativas da evidência. Estes critérios incluem calcular a concordância entre linhas independentes de evidência e a habilidade de predizer uma linha de evidência a partir de outra como forma de distinguir entre explicações melhores de outras piores.

 

Agora, deixe-me voltar para as 12 linhas de evidência para a Evolução Humana. Eu os agrupei em 7 que representam evidências biológicas do presente e 5 que representam evidências do passado biológico e geológico. Eu farei observações sobre seu significado e inter-relações ao invés de explicar o que cada linha significa, uma vez que eu penso que elas são na sua maioria auto-explicativas.

 

Categoria número 1 (Classificação Taxonômica Hierárquica): é um bom exemplo de um padrão que pode, certamente, ser explicado pela criação especial. Linnaeus fez isso. Mas Darwin, um século depois, explicou o mesmo conjunto de relações ordenadas entre organismos como sendo o resultado de evolução divergente e ancestralidade comum. O mais importante, penso, é o fato de que organismos criados “de novo” não precisariam mostrar graus de variação de similaridade uns dos outros. Cada criatura poderia ser construída completamente diferente de todas as outras criaturas e feita de diferentes materiais. Humanos não precisam parecer como macacos, como nós parecemos. Nós mostramos graus de variação de similaridade a eles e somos feitos da mesma matéria. Nós poderíamos ter sido criados desta forma, mas precisamos parecer assim, como se na verdade, tivéssemos evoluído e divergido a partir de um ancestral comum recente.

 

Outra característica importante e raramente apreciada pelas explicações evolutivas para a existência de organismos naturalmente aninhados ou agrupados hierarquicamente é que isto segue a predição de que organismos com certas combinações de características – como chimpanzés com asas, flores com esqueleto ósseo, ou humanos com cascos ao invés de pés – são biologicamente impossíveis devido aos “gaps” intransponíveis produzidos pelos eventos de maior divergência evolutiva que separam chimpanzés de pássaros, flores de vertebrados e humanos de cavalos. Um criador todo-poderoso, certamente, poderia criar quase qualquer combinação destas fantásticas e irreais criaturas.

 

O número 2 (Anatomia Comparativa) e o número 3 (Embriologia Comparativa) são semelhantes ao número 1, em que os organismos poderiam ter sido deliberadamente formados para lembrar um ou outro mas eles não precisam ter sido criados. Mas se os organismos compartilham variados graus de parentesco evolutivo com outros, então, tais similaridades anatômicas e embriológicas são obrigatórias. Provavelmente não há exemplo mais poderoso ou surpreendente de tais similaridades do que entre fetos de primatas, especialmente os hominóides.

 

A categoria número 4 (Bioquímica comparativa) é de especial interesse e importância. Isto se deve ao fato de que o entendimento ou concordância das evidências bioquímicas com as evidências anatômicas ilustram outra importante consideração na avaliação da força da teoria evolutiva: em outras palavras, a habilidade de comparar similaridades bioquímicas entre espécies no século XX forneceu um teste da teoria evolutiva que havia sido baseado principalmente nas evidências de estudos anatômicos comparativos, biogeografia e registros fósseis muito limitados de hominídeos no século XIX. Se o mesmo padrão geral de similaridades bioquímicas não concordassem com o padrão baseado nas comparações anatômicas, a teoria evolutiva teria sérios problemas. Mas os padrões concordam, e por isso a teoria evolutiva está ainda mais forte.

 

Os números 5 (Comprometimento Adaptativo) e 6 (Estruturas Vestigiais) são ambos muito difíceis de serem explicados como resultado de projeto deliberado ou criação especial, uma vez que eles representam uma engenharia “pobre”. Mas eles são excelentes exemplos das restrições inerentes aos sistemas biológicos que evoluem com o passar do tempo, e, dispondo somente de estruturas ancestrais disponíveis para a modificação, face a novas e freqüentes pressões seletivas. Os exemplos humanos que listei no número 5 – pélvis e laringe – são dois dos melhores exemplos de comprometimentos adaptativos entre pressões seletivas competidoras que eu conheço.

 

O ítem número 7 (Biogeografia) se refere simplesmente ao fato observado, de que espécies que parecem semelhantes tendem a ser encontrados próximas umas às outras – como ilustrado pelo exemplo dos primatas que listei. O caso especial de biogeografia pertinente à evolução humana, é que em 1871 Darwin utilizou o trabalho de Huxley e outros que mostraram que os animais mais semelhantes a humanos são os chimpanzés e gorilas que vivem somente na África, para predizer onde nós poderíamos encontrar mais fósseis de nossos ancestrais – África.

 

A sustentação da predição correta de Darwin pode ser dada pela categoria 8 (Paleobiogeografia), uma vez que todos os hominídeos primitivos conhecidos são da África e de nenhum outro lugar. Mas o fato de que Darwin pôde usar evidências da biogeografia para predizer que o padrão deveria se assemelhar em um corpo de evidências completamente separado – o registro fóssil – é um maravilhoso exemplo de como a concordância entre linhas separadas de evidências são uma predição testável para uma teoria científica e, além disso, suporte para a teoria - neste caso, a evolução  - quando a predição é sustentada.

 

O número 9 (Seqüência Fóssil) para hominídeos é justamente um estudo de caso único do padrão presente nos registros fósseis em geral. O padrão é que espécies modernas não são encontradas através dos registros fósseis do topo até a base – o que seria de se esperar se todas as espécies fossem formadas de uma vez no início da vida sobre este planeta. Ao invés disso, o que descobrimos é menos e menos evidência de espécies modernas quanto mais fundo nos registros fósseis e geológicos nós vamos – um padrão predito pela teoria evolutiva e completamente consistente com a teoria evolutiva. Além disso, este é o único padrão consistente com a teoria evolutiva. E não há série fóssil mais impressionante que se possa utilizar para ilustrar este padrão do que a seqüência geral de fósseis hominídeos. Também não há exemplo pedagogicamente mais poderoso para estudantes que nossa própria linhagem.

 

O número 10 (Intermediários Fósseis) se refere ao fato que, sem levar em consideração o modo ou taxa de mudança evolutiva, deveria haver evidências de continuidade morfológica ao longo do tempo nos registros fósseis se as espécies são ligadas evolutivamente e relacionadas umas às outras. Há melhor exemplo que alguém possa utilizar em classe para ilustrar este ponto do que um fóssil como Lucy com sua mistura de características humanas e de chimpanzés? Às vezes eu penso que como antropólogos físicos nós somos especialmente afortunados em ter tais exemplos maravilhosos para utilizar em nossas classes.

 

O número 11 (Coerência Ecológica da Reunião de Fósseis) é um ponto especialmente poderoso para se utilizar em reação às afirmações associadas da geologia do dilúvio que muitos criacionistas fazem. A idéia de que o registro fóssil e o padrão geológico vistos no planeta é na verdade o registro de uma única, recente e global catástrofe na forma do Grande Dilúvio, e o postulado diluviano de que nenhuma ordem cronológica real de qualquer conseqüência existe nos registros fósseis e geológicos da Terra. Mas o fato de que sucessivas reuniões de fósseis na verdade contém grupos de espécies coerentes ecologicamente, comuns a ambientes específicos, contraria esta afirmação criacionista por demonstrar que ambientes vem e vão e retornam novamente muitas vezes ao longo do tempo mas as espécies dentro deles mudam.

 

O registro fóssil não é meramente uma coleção confusa de vítimas afogadas numa inundação, mas um registro consistente de instantes ecológicos da história natural da vida neste planeta. O número de sítios paleoantropológicos e arqueológicos coerentes ecologicamente desde Laetoli, lago de Turkana, desfiladeiro de Olduvai, até o presente é impressionante, e todos fornecem excelentes exemplos para usarmos em nossas classes.

 

Finalmente o número 12, Registros Arqueológicos de ferramentas de pedra e outros artefatos é uma linha de evidência unicamente humana disponível para nós, pois ensinamos sobre história natural humana. Nenhum outro organismo deixou tais registros de evolução do comportamento. Mais importante: o padrão de mudança na pré-história lítica dos humanos é paralela com o registro fóssil no qual há mudanças de mais primitivos a mais modernos ao longo do tempo. O registro arqueológico enriquece de modo único nosso estudo da evolução humana.

 

Individualmente, talvez, alguém pode argumentar que qualquer linha de evidência parece assim por ser a maneira pela qual foi intencionado pelo criador. Mas tais argumentos criacionistas na realidade envolvem uma mistura de elementos de diferentes modelos de criacionismo como o da “Terra jovem – rápida criação com um dilúvio” ou o da “Terra antiga – criação progressiva sem dilúvio”, de modo que são fundamentalmente incompatíveis e inconsistentes uns com os outros. Somente uma explicação evolutiva pode racionalmente explicar estas linhas de evidências, individual e coletivamente. Sem dúvida, é sua força combinada que suporta a evolução tão extraordinariamente bem.

“É na verdade marcante que esta teoria tenha sido progressivamente aceita pelos pesquisadores, seguindo uma série de descobertas nos vários campos do conhecimento. A convergência, nem procurada nem fabricada, dos resultados do trabalho que foi conduzido independentemente é em si um argumento significativo a favor desta teoria”. (Papa João Paulo II à Pontifícia Academia de Ciências, 22 de Outubro de 1996)

 

Concluindo, o fato de que há tantas linhas de evidências suportando a idéia de evolução humana simplesmente significa que nós, como antropólogos físicos, temos uma oportunidade incomparável de ensinar sobre evolução e confrontar efetivamente o criacionismo em nossas classes. Nós temos o melhor estudo de caso para evolução em toda a biologia. Deixe-nos regozijar no que usamos em nosso ensino. A oportunidade é sua, e eu espero que todos vocês tirem vantagem disso.

 

Agradecimentos: Muito obrigado a Craig Nelson da Universidade de Indiana por me auxiliar no desenvolvimento e enriquecer meu pensamento sobre a força do caso da evolução em geral. Ele me encorajou a aplicar várias destas linhas de evidência a humanos como um estudo de caso.


Traduzido por Rubens Pazza,
Em 01 de Junho, 2004.

Texto original
Traduzido e publicado sob licença de Talk Origins

Como citar esse documento

Muitas pessoas perguntaram como citar esse trabalho em artigos formais e acadêmicos. Esse trabalho é uma publicação online, publicada originalmente pelo arquivo do Talk.Origins, e em sua versão em português no Projeto Evoluindo. Há procedimentos acadêmicos padrão para citação de publicações online. As informações para referenciar o texto original encontram-se aqui.

Nickels, M. (2004) Humanos como um estudo de caso para evidências de Evolução. Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Rubens Pazza. [http://www.evoluindo.biociencia.org/humanevol.htm]


 

   
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